A Ilha de Nossa Senhora do Desterro tem sua ocupação iniciada ainda no século XVII. Momento histórico que é próximo ao período de vida de J.S. Bach (1685-1750), no qual nasce a música de onde partem essas transcri(a)ções. Este período é marcado pela presença das armações baleeiras em diferentes pontos do litoral brasileiro e, de modo especial para esse projeto, no litoral catarinense. É a história da caça à baleia na ilha que será cantada nessas transcri(a)ções de J.S.
Bach, uma vez que passa a referenciar suas letras. As armações foram, ao menos nesse primeiro momento, “empresas escravocratas equiparáveis em estatura aos engenhos de açúcar do nordeste brasileiro” (MAMIGONIAN, 2014, p. 574), operando de maneira fundamental para a economia local, a qual, de um modo que não difere de outras localidades do território brasileiro, era baseada no trabalho escravo negro.

Esta imagem do naturalista Tilesius é talvez o único registro iconográfico de uma festa – de Coroação de Reis – promovida pelos negros, ocupando a parte central da cidade de Desterro. O registro é de dezembro de 1803, feito nas festividades do fim daquele ano. A imagem chama-se “Uma festa negra na Ilha de Santa Catarina” (1803).
O registro se dá em um momento germinal da cidade e anterior à intensificação da repressão às festas dos negros, ilustrando uma história que virá a ser repleta de interdições. Tais são os fatos locais, os quais se articulam com a dinâmica estabelecida com a diáspora africana em todo o Brasil e, de um modo mais amplo, em todo o Atlântico negro. A expressão dá nome ao livro, escrito por Paul Gilroy, no qual essa dinâmica nos é detalhada, salientando, justamente, a não perenidade identitária desse contexto:
As culturas do Atlântico negro criaram veículos de consolação através da mediação do sofrimento. Elas especificam formas estéticas e contra-estéticas e uma distinta dramaturgia da recordação que caracteristicamente separam a genealogia da geografia, e o ato de lidar com o de pertencer (GILROY, 2012, p.13).
Os mencionados processos se dão de um modo específico em cada um dos lugares onde essas “culturas do Atlântico negro” aportam (seja na escala do continente como um todo, seja ao longo da costa brasileira), mas com um funcionamento geral semelhante. Trata-se da dinâmica onde processos locais repercutem decisivamente em outras regiões. Para colocar a relação entre a Bahia e a Ilha do Desterro como um exemplo, mencionamos o momento em que “as intensificações de cerceamento das festas também aumentaram em todo o Brasil a partir das rebeliões ocorridas em Salvador e no Recôncavo baiano, que culminaram no levante dos malês, em 1835” (SILVA, 2009, p. 41). Longe de ser um fato isolado, este registro nos ajuda a visualizar, avançando-se gradualmente na linha do tempo, a demarcação da mudança nas posturas e políticas públicas em relação às festas negras em Santa Catarina.
Em 1845 já se encontra na ilha registros claros desse “cerceamento”, levado a cabo por meio de um enrijecimento das normas que regiam aquilo que parecia carregar uma latente e intrínseca ameaça de revolta. A exemplo, lemos o parecer apresentando os motivos de uma proibição outorgada pela Câmara Municipal através do seu “código de posturas”. Texto que parece transferir toda a violência do “choque” que há no “encontro” inter-étnico do processo colonial escravagista, para o que se passava entre as próprias nações africanas escravizadas na ilha a fim de interditar:
A indecência das danças de quasi todas as nações africanas que offendia a moral as desordens que se originarão da embriaguez de muito d’esses indivíduos, o choque resultante do encontro de uma com outra nação que nesse encontro se disputavão a precedencia no passo, a rivalidade rancorosa que se entre ellas desenvolvia por occazião d’esse divertimento, cauzas estas que bastante fazia tremer pela tranquilidade publica (ARQUIVO PÚBLICO DE SANTA CATARINA (APE/SC). (grifo nosso).
Dessa maneira, ficamos sabendo muito pouco sobre esse “passo” que a essa altura tinha sua precedência disputada na ilha. E isso mesmo se tratando dele ser algo fundamental para uma cultura – que se constitui a partir de “choques”/”encontros” transculturais – e da mesma forma como isso se deu em tantos outros lugares do Brasil, da América e do mundo. É mais que evidente, acredito que a essa altura para todos, que esse “passo” – em se tratando de cultura negra – deixa marcas profundas na identidade da música de um lugar.