Bio

Chico Saraiva é compositor, violonista, cantor e pesquisador. Sua trajetória se constrói no encontro entre o violão e a canção, a criação autoral e as culturas populares brasileiras.
Nascido no Rio de Janeiro e criado em Florianópolis, Chico teve sua iniciação musical ainda na Ilha de Santa Catarina, entre a canção popular e o violão erudito. Aos 17 anos, mudou-se para Campinas para estudar Música Popular na UNICAMP. Radicado durante muitos anos em São Paulo, desenvolveu ali parte fundamental de sua trajetória artística e mantém até hoje uma relação estreita com a cidade, seu público e seu circuito cultural.

Em 1999 lançou Água, seu primeiro disco, instrumental, realizado em parceria com Eduardo Ribeiro e José Nigro. No mesmo período, tornou-se integrante fundador de A Barca, grupo que há quase três décadas realiza viagens, pesquisas e criações a partir das culturas tradicionais brasileiras, em diálogo com mestres, comunidades e manifestações de diferentes regiões do país. Essa experiência tornou-se uma das matrizes permanentes de sua escuta e de sua criação.

Ao longo dos anos, lançou discos como Água, Trégua (Biscoito Fino, 2005) , Saraivada (Biscoito Fino, 2007) Sobre Palavras (ao lado de Verônica Ferriani), Tejo-Tietê (ao lado da portuguesa Susana Travassos) e Galope (ao lado de Daniel Murray) desenvolvendo uma obra que transita entre a música instrumental, a canção e diferentes formações. Em 2003, venceu o 6º Prêmio Visa de MPB – Edição Compositores, reconhecimento que impulsionou sua carreira e o levou a apresentar seu trabalho em diferentes palcos no Brasil e no exterior, ao lado de artistas como Guinga, Francis Hime e parceiros de diferentes gerações.

A relação entre o violão e a canção, presente desde o início de sua trajetória, ganhou uma dimensão de pesquisa no projeto Violão-Canção, desenvolvido na USP. A investigação deu origem a livro, documentário, oficinas e um site em contínua expansão, reunindo entrevistas, registros e reflexões sobre as relações entre o violão solo, a canção popular brasileira, a escrita e a oralidade.

Essa pesquisa prosseguiu no doutorado em Música na USP e se ampliou durante um período de pesquisa em Weimar, na Alemanha, no Transcultural Music Studies da Hochschule für Musik Franz Liszt, em interlocução com o musicólogo Tiago de Oliveira Pinto. O percurso aprofundou questões de transculturação, oralidade e diferentes modos de transmissão musical e desembocou na Suíte das Reentrâncias, trabalho que articula Bach, canção brasileira, voz, violão e viola-machete.

Nos últimos anos, a viola-machete passou a ocupar um lugar central nessa trajetória. Ligado à história musical da Ilha de Santa Catarina, o instrumento abriu também uma importante frente de pesquisa no Recôncavo Baiano, através do encontro com mestres, músicos e parceiros de lá. O contato com o Recôncavo e suas tradições tornou-se uma das frentes importantes de sua investigação, ampliando sua escuta sobre instrumento, repertório, corpo, ritmo, oralidade e território.

É desse percurso que nasce Machete D’Ilha, realizado com Carolina Moya, em que a viola-machete encontra o violão, as vozes, o corpo e a dança, atravessando repertórios de diferentes tradições brasileiras e latino-americanas.

Em paralelo, Cordas de Tripa recoloca o violão, a voz e a canção no centro da cena. O novo show reúne composições inéditas, músicas já gravadas e canções de mestres ligados à trajetória de Chico, abrindo uma nova etapa de sua produção autoral.

A pesquisa sobre a machete e os encontros com diferentes tradições também alimentam Rainhas e Reis, projeto que estabelece um paralelo entre processos de revitalização da viola-machete e do Cacumbi e amplia o diálogo com mestres e manifestações de diferentes territórios.

Hoje, Chico vive um movimento de ida e volta entre Florianópolis e São Paulo. A Ilha volta a ocupar um lugar central como território de criação, pesquisa e encontro com tradições que fazem parte de sua história. Chico foi premiado recentemente, em 2025, com com a canção “Tempos do Mar”, composta em parceria com o poeta paulista Álvaro Faleiros, no 14º Festival da Canção do Balneário Camburiú (SC), além do primeiro lugar, ganhou também os prêmios de melhor instrumentista, melhor arranjo, melhor artista solo (e a cantora que o acompanhou, Bárbara Damásio, ganhou o premio de melhor intérprete). Esse percurso no sul segue se entrelaçando com São Paulo, que permanece como lugar fundamental de circulação e interlocução, depois de muitos anos de atuação na cidade. A nova fase de seu trabalho se coloca para a circulação por teatros, centros culturais, festivais e instituições de diferentes regiões do país, mantendo especial relação com o circuito paulista e com espaços como o Sesc/SP, onde sua música esteve presente em diferentes momentos da trajetória com, seu livro “Violao-Canção”, que vem conseguindo um arco ascendente de vendas ao longo do tempo, tendo sido publicadas pela Sesc Edições, de São Paulo.

As Oficinas Violão-Canção fazem parte dessa mesma experiência, levando a universidades, instituições culturais e espaços de formação uma pesquisa que articula prática musical, escuta, composição e reflexão sobre as relações entre violão e canção brasileira.

Como desdobramento natural da experiência acumulada ao longo desse percurso, Chico passa também a estruturar o Pedra Saraiva, produtora e espaço cultural que nasce de sua própria trajetória e articula criação, performance, pesquisa, produção, registro e circulação.

O estúdio do Pedra ocupa um lugar importante nesse processo, como espaço de registro das novas obras e dos materiais resultantes das pesquisas em curso: das canções inéditas de Cordas de Tripa às toadas recolhidas em Machete D’Ilha, passando pelos registros de outros projetos e processos de criação.

O Pedra começa, assim, a constituir uma memória de um processo continuado de criação e pesquisa. Mais do que reunir documentos do passado, esse acervo acompanha uma pesquisa que continua acontecendo, reunindo e atualizando materiais de diferentes momentos da trajetória de Chico — do Violão-Canção e de A Barca às pesquisas com a viola-machete, aos encontros com mestres e aos trabalhos que estão sendo produzidos agora.

Para Chico, pesquisa, criação, produção e memória são movimentos inseparáveis. O que é escutado alimenta a criação; o que é criado gera novos registros; os registros permanecem como matéria para novas pesquisas e criações.

É nesse movimento, entre a Ilha, São Paulo e o Recôncavo, entre o violão, a machete e a voz, que Chico Saraiva segue criando, pesquisando e abrindo novas possibilidades para uma música em permanente transformação.

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