No século XX lança-se mão da narrativa que enquadra a ocupação da Ilha de Santa Catarina como exclusivamente “açórico-madeirense”. Ela acaba por se estabelecer no fim da primeira metade do referido período, a partir da necessidade de se construir a “história local” (tônica de então) em “superdimensionando o imigrante” com “omissões” que assim nos são descritas por Ilka Boaventura Leite:

Na literatura sobre Santa Catarina, deparei-me com trechos ou passagens, em sua maioria de inspiração positivista, que explicam o sucesso econômico do Estado sempre atribuindo-o exclusivamente à colonização com europeus, superdimensionando o imigrante, ao invés de se deter pormenorizadamente no conjunto de variáveis que o colocaram nessa posição privilegiada (…). Ou mesmo, desconhecendo o outro lado, o dos projetos fracassados, incorrendo com essa omissão numa reafirmação da idéia de superioridade racial faliciosa” (LEITE, 1991, pg. 15).

Se “é sobretudo o desconhecimento que passou a servir de pretexto pra evasivas em torno da população negra no sul” (LEITE, 1991, p. 21), cabe-nos compartilhar (e desdobrar) a informação bem referenciada. No que tange à cultura popular na Ilha de Santa Catarina, o folclorista Franklin Cascaes é figura chave. Isso mesmo que algumas pesquisas o apontem como um autor “que só dá ênfase para a cultura açoriana e o negro perde-se nessa cultura” (GRUGINSKI, 1999, p. 50, apud SILVA, H., 2019, p.38). Pesquisas mais recentes apresentam a sensibilidade de Cascaes às narrativas das camadas sociais subalternizadas da ilha como um todo, em olhar que incluiu, sim, a presença negra, “diferente da forma como sua obra foi apropriada, como sendo exclusivamente açoriana” (SILVA, H., 2019, p. 38-9 – grifo nosso). Essa “apropriação” institucional da produção de Cascaes era marcante, e foi o que me ficou das inúmeras visitas do meu colégio que, como já dito, ficava justo em frente do museu de antropologia da UFSC.

A sensibilidade de Cascaes nesse sentido se revela a partir das anotações que ele faz no encontro com o senhor Estanislau Jacinto de Aguiar, no dia 2 de fevereiro de 1955, sobre a dança dos pretos velhos do Caxangá. Esta era uma dança por meio da qual era comemorada a libertação de homens escravizados “numa visão particular sobre essa grande campanha da política brasileira, que foi o fim da escravidão” (SILVA, J., 2015, p.128):

Paletó, fraque, calça branca, colete, chapéu de palha e sapato branco. Barba bem cumprida todos personagens usavam um porrete, com o qual batiam no assoalho da casa onde dançavam, formando uma determinada música. Deviam imitar homens velhos, já bastante alquebrados. Sempre tinha um conjunto de homens que tocava gaita, pandeiros, reco-reco, tambor, viola, etc. . (MArquE, Coleção Professora Elizabeth Pavan Cascaes, Cadernos pequenos, pasta 98, p. 10 apud SILVA, H., 2019, p.73-4, grifo nosso).

Essa música, “determinada” pela resultante entre sons de diferentes porretes batidos pelos velhos do caxangá no assoalho da casa que visitavam – da qual tanto gostaríamos que houvesse registro de áudio –, se somava ao canto em versos como os que seguem, na íntegra, e tal qual anotados por Cascaes:

Do tempo da escravidão

Chegou a dança de veios / No meio deste salão / Todos tão a dança / Com seus porrete na mão / Todos os véios dançando / Com seu porrete na mão / Salembrando da mocidade / Do tempo da escravidão

Chegou a dança dos véios / Dos véios do caxangá / Todos de fraque vestido / No salão veio dança

A moda do caxangá / É moda de demirá / Os véios tão dançando / Os moços tão a oiá

A moda do caxangá/ É moda da liberdade/ Os véios tão dançando/ Alembrando da mocidade

Os véios do caxangá/ Já não tem mais mocidade/ Mas tão festejando hoje/ A sua liberdade

Já fomo moço e escravo/ E já tomamo féli/ Mas ganhemo a liberdade/ Graça a princesa Isabeli/ Deixemo de se escravo/ Agora vamo dança/ Que a nossa liberdade/ Custo muito a alcança

Pedimo pro dono da casa/ Licença pra se retirá/ Dando adeus inté pro ano/ Si aqui pudé volta

Os véio do caxangá/ Tão dançando de contente/ Dexaro de ser escravo/ E viaro a sê gente/ Nossa Senhora do Céu/ Com seu Divino Fiinho/ Pediu pro senhor Livrá/ nós do pelorinho

Já tamo muito véio/ Não podemo mais trabaiá/ Mas temo a liberdade/ Por ela vamos dança

Quem viu a dança de véio/ No meio desse salão/ Selembrô de muita coisa/ Do tempo da escravidão 

Museu de Arqueologia e Etnologia Professor Oswaldo Rodrigues Cabral. Caderno manuscrito número 98. Franklin Cascaes, fl.7-8v apud SILVA, J. 2015, p.129.

Anos depois, em caderno de 1981, Cascaes descreve o conjunto de esculturas do Caxangá ressaltando que “representam negros velhos escravos cansados pelo jugo senhorial”, da seguinte forma:

“O bordão representa um símbolo de maus tratos senhoriais. O paletó fraque, a calça justa, a camisa com a gravata borboleta e o sapato representam a liberdade […] O chapéu enfeitado representa a alegria por haverem ganho o prêmio da liberdade humana” (MArquE, Coleção Professora Elizabeth Pavan Cascaes, Cadernos grandes, pasta 20, p. 63-64 apud SILVA, H., 2019, p. 74).