O cacumbi já é algo sobre o que sabe-se bem mais. O último grupo atuante em Florianópolis era liderado pelo capitão Francisco Amaro e foi registrado em áudio pela célebre coleção Marcus Pereira, na quarta faixa de sua edição Música popular do sul – vol 3. O grupo de Cacumbi do capitão Amaro termina após a morte de seu líder em 1991 e, com ele, ao que parece, toda presença nas imediações da Ilha de Santa Catarina1:

Mesmo que o cacumbi tenha desaparecido em Santa Catarina em praticamente todas as localidades onde existiu, seu fim diz muito sobre a forma de tratamento que esses grupos receberam da sociedade, principalmente das autoridades; e as lembranças sobre os antigos participantes do cacumbi se transformam em um reconhecimento de direitos e lutas. Silenciados os seus tambores, suas memórias não se mantiveram num esquecimento, pelo contrário, foram passadas de geração a geração, presentes na atualidade em lembranças características de uma época, muitas vezes, esquecida ou invisibilizada na documentação, na literatura, na historiografia e na própria autoimagem do Estado (SILVA, J., 2015 ps.177-8).

A dissertação “Memórias do cacumbi: cultura afro-brasileira em Santa Catarina, século XIX e XX”, escrita pelo historiador Jaime José da Silva2 em 2015, faz um detalhado levantamento a nível estadual do tema. Seu trabalho apresenta, inclusive, o cacumbi na Ilha de Santa Catarina, assim como as “memórias sobre uma a época em que esta celebração existiu em Tijucas/SC”. (SILVA, J., 2015, p.11). 3

Já sob o nome de “Catumbi”, um grupo fundamental é o de Itapocu: “Esta comunidade remanescente quilombola, situada no distrito de Itapocu na cidade de Araquari em Santa Catarina, na Baía da Babitonga, realiza a festa do Catumbi há mais de 150 anos” (SILVA, A., 2020, p.8). O grupo segue em atividade, tendo sido registrado em 2000 com três faixas na coletânea “Segredos do sul” – produzidas pela associação Cachuera! e lançado pelo Itaú cultural, de São Paulo – e no CD “Catumbi de Itapocu”, gravado pelo grupo e produzido em 2003 pelo departamento de cultura do Sesc de Santa Catarina.

A manifestação, tal qual ali se dá, foi estudada recentemente na dissertação “Alma na voz e Mão no tambor: catumbi de Itapocu – uma fonte de criação musical” (2020) da musicista e pesquisadora catarinense Ana Paula da Silva (SILVA, A. 2020). Com esta artista estabeleço uma colaboração já há alguns anos. Me alegra lembrar que, em uma noite que pousei com minha família em sua casa em Joinville – no costumeiro caminho entre São Paulo e a ilha –, tivemos a oportunidade de conversar sobre a relevância que teria um estudo sobre o tema, no caso feito por uma musicista como ela, que é descendente de família da região. Naquela noite tive a chance de estimular minha amiga a levar em frente o projeto (para o qual segue dando continuidade), partindo da comunidade onde a manifestação tem sua maior importância.4

A relação com o mundo hispânico, na fronteira sul e oeste do Brasil é fundamental para a música de Santa Catarina. Isso se traduz na designação de quem toca tambor nessas manifestações: “tamborero”. Termo que também é utilizado, por exemplo, no candombe uruguaio.

Nos trabalhos sobre essa manifestação, frisa-se que no estado de Santa Catarina é utilizado ainda um terceiro nome, Quicumbi, o qual é adotado mais amplamente no Rio Grande do Sul (PRASS, 2013). Isso nos dá a oportunidade de adiantar uma possível relação com uma dança que invadirá essa tese-suíte no capítulo – 4 – Cumbees. Ou como nos coloca o especialista em cordas dedilhadas e música antiga Rogério Budasz, em seu livro intitulado “A música no tempo de Gregório de Matos: música ibérica e afro-brasileira na Bahia dos séculos XVII e XVIII:

Embora não sejam mencionados por Mattos, o cumbé e o paracumbé são definidos em alguns dicionários dos séculos XVIII e XIX como bailes africanos ou afro-americanos. No Brasil colonial algumas fontes mencionam os quicumbis, ou cucumbis – prováveis variantes do cumbé –relacionados às festas do Rei Congo (BUDASZ, 2004, p.31 grifos nossos).

  1. Como nos conta o documentário [assista aqui] apresentado como trabalho de conclusão de curso de Paulo Junior em 2012. ↩︎
  2. Que se torna colaborador direto desse trabalho, como consultor nos assuntos pertinentes ao seu tema de pesquisa. ↩︎
  3. O pesquisador aponta ali ainda o fato que atualmente o Catumbi existe em apenas uma comunidade do Estado, a localidade de Itapocu em Araquari. ↩︎
  4. Veja também o Documentário “Catumbi de Itapocu: Uma Família”. Paulo Júnior. UFSC. 2012. ↩︎