Um instrumento de origem africana que no final dos anos 1980 foi redescoberto e sobreviveu justamente na Ilha de Santa Catarina foi o orocongo. O processo se deu por uma iniciativa daquele que passa então a ser conhecido como Seu Gentil do orocongo, que conheceu o instrumento com vizinhos cabo verdianos, apaixonou-se pelo instrumento e passou a tocá-lo e a fabricá-lo. Instrumento que “na verdade é um monocórdio como o berimbau, mas a corda não é percutida e sim friccionada por um arco.”78
Seu Gentil adaptou com maestria o instrumento de uma só corda ao cancioneiro tradicional de catumbis, boi de mamão, terno de reis, ratoeiras, umbanda, candomblé e gêneros urbanos correntes no seu tempo. Cantou e se acompanhou ao orocongo por mais de 50 anos, tornando-se figura conhecida e querida na Ilha de Santa Catarina.79 Faleceu em 2009, aos 64 anos. Este instrumento tem sua presença registrada na primeira metade do século XIX no Rio de Janeiro, como vemos abaixo na imagem de Debret,80 antes de renascer, pelas mãos de seu Gentil, em sua cidade.
As questões levantadas por essa pesquisa são também motivadas pela “pegada” de seu Gentil.81 A forma como ele, a partir de um encontro pessoal e pontual (com seus vizinhos), se encontra com seu instrumento. A forma como, a partir desse encontro, inaugura na Ilha de Santa Catarina um novo momento na história do orocongo. A forma como transparecia, em suas interpretações, traços de um virtuosismo, referenciado na lógica de um sistema de musicalidade africana. Traços que remetem diretamente à musicalidade da mbira, a
78 Segundo o músico e pesquisador Paulo Dias – associação Cachuera! – em entrevista concedida a Radio Cultura de São Paulo em 2002. http://culturabrasil.cmais.com.br/colunas/klaxon/de-cabo-verde-a-santa-catarina
79 Em 2020 a escola de samba Copa Lord, da comunidade onde seu Gentil vivia, o Mont Serrat, homenageia-o em um samba enredo dedicado a Seu Gentil.
80 Que nos é apresentada por Mary Karasch (2019) em “Slave Life in Rio de Janeiro, 1808-1850”.
81 Link com 2.1.2 “pegada de Seu Gentil do Orocongo uma mistura completamente pós-moderna do Bispo do Rosário com Hélio Oiticica.” na sugestão de Ilka Boaventura.
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mesma registrada na ilha pelo navegador russo em 1815, com a qual minha machete teve a oportunidade de tocar. A forma que seu Gentil chega a dar para o próprio instrumento que constrói. Tudo isso fala de uma dinâmica espiralar, de constante reprocessamento, em que também operam as tradições.
Acima temos a foto do orocongo de seu Gentil.82
Essa lista de confluências é aqui trabalhada com foco no que acontece entre violão e viola- machete, a partir da cadeia de outros instrumentos traçada em seu entorno, no capítulo – 4.2 . Isso sem perder de vista a transformação que os próprios instrumentos operam na “historicidade das relações”, de um modo que as “transformações materiais” dos instrumentos registram os “conflitos socioculturais” que “produzem as musicalidades nas quais esses instrumentos se inserem”, como nos conta o historiador Rafael Galante em sua dissertação. Nela, Rafael estuda processos análogos aos aqui investigados, em um trabalho que se aprofunda (bastante mais do que essa tese-suíte) na “organologia”. Em meio a essa multiplicidade de fatores, segue-se atento então à necessidade de se:
entender o lugar histórico dos instrumentos, sem perder de vista que suas transformações materiais também são traços que documentam a historicidade das relações e dos conflitos socioculturais que produzem as musicalidades nas quais os próprios instrumentos se inserem e que, ao mesmo tempo, também transformam (GALANTE, 2015, p. 42).
O modo como os “conflitos socioculturais que produzem as musicalidades” se deram na Ilha de Santa Catarina – onde o “choque” parece ter prevalecido (por um período especialmente longo de tempo) com relação a uma possibilidade de “encontro”83 – não proporcionou (ainda) uma história da viola-machete no local, mas sim do orocongo. A forma surpreendente, e independente (ao menos em um primeiro momento), com que isso se dá é sinal da potência que há na ilha e nessas “culturas planetárias mais fluídas e menos fixas”. Traço que segue sendo trabalhado aqui.84
82 Presente no encarte do cd Segredos do sul (Cachuêra/Rumos Itaú) .
83 LINK com a) transculturação: as madeiras e as ilhas em “esta dimensão deve necessariamente ser considerada de forma conjugada à opressão intrínseca e dilacerante de “encontros” que na verdade implicam historicamente em um apagamento sistemático do “outro”. Fato que se desdobra em relações as quais seguiremos – dentro de cada um de nós – trabalhando.”
84 LINK com 9.1 considerações finais / 9.1.6 Bach “sem nenhum caráter” em: “Esta abordagem cosmopolita nos leva necessariamente não só à terra, onde encontramos o solo especial no qual se diz que as culturas nacionais têm suas raizes, mas ao mar e à vida marítima que se movimenta e que cruza o oceano Atlântico, fazendo surgir culturas planetárias mais fluídas e menos fixas” na citação – o Atlântico negro – de Gilroy.